EMBALANDO NA FLORESTA
Não é fácil chegar à comunidade Rio Novo, na Reserva Extrativista (Resex) do rio Iriri. Depois de duas horas de carro em estrada precária, são necessários outros 40 minutos de barco para chegar a um punhado de casas cercadas pela mata. É ali que, há seis anos, funciona uma miniusina de produtos da floresta, com a castanha-do-pará de carro-chefe.
O projeto, apoiado pelo ISA (Instituto Socioambiental), conseguiu contornar dois problemas históricos do extrativismo: contratos diretos com o mercado, nos quais elimina o atravessador, e o beneficiamento do produto dentro da reserva, o que gera renda na comunidade.
“Com o processamento, melhorou muito para as famílias da comunidade. Antes, era só no peixe, mas não estava dando renda porque não estavam pegando, e hoje o pessoal se sente mais à vontade com a castanha”, afirma Raimunda Rodrigues, 27, nascida e criada em Rio Novo.
Além da família de Raimunda, a miniusina emprega oito funcionários de comunidades vizinhas, que complementam a renda com Bolsa Família. A quebra da castanha é feita com a ajuda de máquinas de fazer botão adaptadas. Depois de processada, é colocada em embalagens plásticas e transportada de barco e carro até Altamira (PA), viagem de cerca de 300 km.
A reserva do rio Iriri faz parte da Terra do Meio, um conjunto de áreas protegidas contíguas que, somadas, chegam a 8,5 milhões de hectares –pouco maior do que a Áustria. A região inclui ainda três terras indígenas e o Parque Nacional da Serra do Pardo, entre outras unidades protegidas.
Para ambientalistas, a geração de renda via extrativismo ajuda a preservar a floresta ao oferecer a ribeirinhos e índios alternativas à madeira e à criação de gado. Críticos, no entanto, afirmam que a atividade é inviável pela escala pequena e pelas dificuldades de trabalho e logísticas.
MINGAU
Na cidade de Uruará funciona a sede da associação Sementes da Floresta, que reúne 22 famílias dedicadas à agricultura familiar e ao extrativismo florestal.
A pequena loja na cidade vende produtos como vela de andiroba e sabonete de cupuaçu, mas a grande aposta é o mesocarpo de babaçu, uma farinha fina de mingau.
A associação, iniciada em 2007 com 70 famílias, começou a vender o mesocarpo neste ano para entrar na merenda das escolas municipais de Uruará. No futuro próximo, espera expandir para outras cidades –é a esperança para aumentar a escala da comercialização.
Outra iniciativa é fazer, com recursos próprios, o reflorestamento com algumas das espécies mais cobiçadas pelos madeireiros. “Temos a visão de que, se ninguém botar a mão no meio e reflorestar essas árvores, o ipê, a andiroba e o mogno deixarão de existir”, diz João da Silva Filho, presidente da associação.
“Estamos nadando contra a enxurrada do desmatamento, é difícil”, afirma a irmã franciscana Ângela Sauzen, uma das idealizadoras do projeto. “Muita gente nos chama de loucos, uns com raiva, outros com inveja. Estamos vendo resultados, mas é preciso muito esforço.”
RAIO-X
Cidade: Medicilândia (PA)
Ranking de Eficiência (REM-F): 5.245º (0,223) Ineficiente
IDHM (2010)*: 0,582 (baixo)
Área desmatada (km²): 2.066 (24,9%)
*Números de 2010. O índice varia de 0 a 1. Os municípios da Transamazônica são de desenvolvimento baixo ou médio. O IDH do Brasil é 0,755.
Textos: Fabiano Maisonnave
Fotos: Lalo de Almeida
Fonte: Folha de São Paulo