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Mudança climática pode ser causa de queda na safra de castanha-do-pará

Mudança climática pode ser causa de queda na safra de castanha-do-pará

Redação / Web Amazônia
Por: Redação / Web Amazônia
03/12/2017 às 22h25 Atualizada em 03/12/2017 às 22h25
 Mudança climática pode ser causa de queda na safra de castanha-do-pará

Renata Silva/Divulgação

Castanheira, que pode chegar a 50 metros de altura

DESABASTECIMENTO
Empresas que utilizam pequenas quantidades do insumo não sentiram a quebra de safra neste ano, pois tinham estoque, como a Lush -ela emprega óleo de castanha em alguns produtos de beleza.

Situação diferente da Beraca, que produz ingredientes para cosméticos. Segundo Érica Pereira, da área de sustentabilidade da empresa, a produção já havia apresentado uma diminuição no ano anterior.

"A castanha passou a ter um preço muito alto no mercado, e isso refletiu nos custos de produção ao longo de toda a cadeia." Para suprir a demanda, a empresa expandiu a rede de fornecedores.

Estratégia igual foi adotada pela indústria de alimentos Wickbold. "O reajuste em relação ao preço médio pago em 2016 foi de mais de 90%, e também tivemos dificuldades no abastecimento", diz o gerente de marketing, Pedro Wickbold. A empresa também intensificou o contato com extrativistas na região da Terra do Meio, no Xingu.

"Compramos uma parcela significativa do que é extraído por lá. Nossa presença é importante não só pela efetividade dessa relação de compra e venda, mas para equalizar o preço da safra em um patamar justo que traga motivação para os extrativistas".

Da mesma forma que depende do ambiente, o extrativismo acaba por ajudar a conservá-lo, diz Maretti, do ICMBio. As populações tradicionais utilizam a floresta de modo sustentável e, ao ocupar o espaço, inibem a ação de madeireiros, por exemplo.

E, se a coleta de castanhas diminui, quem vive de extrativismo pode ter de buscar seu sustento de forma não sustentável -ampliando a área de roça, pescando mais do que o adequado.

"Valorizando o trabalho dos extrativistas, a presença dos ribeirinhos se fortalece e, consequentemente, evita-se a ocupação das terras para outros fins", diz Wickbold.

Para atender as exigências do mercado de alimentos, com demanda mais estável que a de cosméticos, extrativistas têm de investir na qualidade do produto. "A gente viu que teria que trabalhar com boas práticas de manejo -armazenagem correta, transporte correto", diz Adriano Jerozolimski, coordenador-executivo da Associação Floresta Protegida, que trabalha com 22 comunidades de índios kayapó.

Aurelice Vasconcelos/Divulgação

Castanhas da reserva Chico Mendes, no Acre, são selecionadas por cooperativa

PLANTA DOMESTICADA

Cultivar castanheiras não é fácil: são árvores que chegam a 50 metros de altura e não podem ser plantadas perto de casas, levam de uma década a 15 anos para começar a produzir comercialmente.

Assim, a representatividade da castanha-do-pará plantada é pequena: Alfredo Homma, pesquisador da Embrapa, estima que seja entre 3% e 5% da produção. Só extrativismo, porém, pode não dar conta da demanda. "As indústrias extrativistas vão ficar cada vez mais vulneráveis às flutuações climáticas", diz Luis Fernando Laranja, sócio da Ouro Verde Amazônia.

Autor do livro "A Castanha do Pará na Amazônia: Entre o Extrativismo e a Domesticação", o historiador José Jonas Almeida sugere plantio em áreas desmatadas, como no sudeste do Pará. "Você pode reocupar essas terras com castanha, o produto da região. E onde a floresta é mantida continua o extrativismo."

Homma aponta caminho semelhante. "Quando a demanda cresce, o setor extrativo não tem condições de acompanhar." Domesticar a planta, afirma, é natural -ninguém compra hoje maçãs ou limões de extrativismo.

Com investimento pesado em pesquisa, diz Homma, será possível reduzir a altura da árvore e fazer com que ela cresça mais rápido. "Acho que, futuramente, vamos plantar castanheira como se fosse mangueira."

Fonte: Jornal Folha de São Paulo/Fernanda Reis
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