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Ameaça ao Sairé gera reação e possível ruptura da festa

Ameaça ao Sairé gera reação e possível ruptura da festa

Redação / Web Amazônia
Por: Redação / Web Amazônia
22/08/2019 às 10h12 Atualizada em 22/08/2019 às 10h12
Ameaça ao Sairé gera reação e possível ruptura da festa
O folião, professor e pesquisador Jackson Rego Matos ao lado de dona Luzia“Marambiré”
"Eu nunca neguei minha raiz. Desde os fim dos anos 70, é praticamente minha família, a dona Severiana “Xivica” (avó), o tio Neco (pai da dona Madá), a dona Luzia, os nativos que cuidavam do Sairé. Cantando o Macacauá, resgatando a música. Dona Luzia com dona Teté, como bem entendidas da arte da música e da leitura, criaram a letra do “Marambiré”", lembra seu Dengo.

De 43 a 73, o Sairé foi proibido pela Igreja, mas mesmo assim foi muito forte a preservação da ladainha. Na casa de seu Osmar (atual juiz), da família do seu Joaquim Vieira, não se dormia antes de rezar a ladainha toda. Mesmo proibido pela igreja durante trinta anos, o Sairé era comemorado nas comunidades.

Seu Dengo e Jackson lembraram também de equivocada apresentação da festa popular em evento em Brasília essa semana, sem conversa prévia, participação oficial e respeito com os responsáveis pelo ritual sagrado. Na tradição, o festeiro, os juízes e a saraípora teriam mais propriedade e responsabilidade para explicarem o que representa o Sairé para a comunidade nativa. Lembram também de noite em que o secretário de cultura, Luís Alberto Pixica, usou espaço de ensaio do sagrado na casa da dona Benvinda para falar sobre indígenas de forma negativa, sem dar-se conta que o Sairé é uma festa que nasce de ritual dos povos tradicionais da Amazônia. Isso começou a criar o desconforto dentro dos participantes do rito religioso, já que muitos celebram o Sairé como festa de origem indígena.

A fé durante o ano todo
Os rituais da Santíssima Trindade

A festa do Divino é parte de um conjunto anual de ações que, em Alter do Chão, culminam no Sairé, em setembro. Em outras palavras, é um dos primeiros encontros tradicionais do ano do calendário popular religioso, um momento em que se organiza a vida comunitária e associativa do povo nativo da vila.Festa do Divino em Laranjal, na família do Osmar, em 2017

A festa da Santíssima Trindade, ou do Santíssimo ou do Divino acontecem em geral em maio. Este ano, a festa foi na casa do seu Luciano, no Caranazal. Em 2018, foi também no Caranazal, coordenada pelo seu Raimundo. Em 2017, foi no Laranjal na casa do Osmar, que é o juiz do Sairé em 2019, é um dos oito filhos de dona Dalva, a saraipora que carrega o símbolo máximo da festa desde a morte de dona Maria Justa (quem conduziu o símbolo por cerca de 30 anos, em exemplo de fé). Estes personagens junto com seu Dengo, o festeiro do Sairé 2019 e cacique Borari da aldeia Caranã, são responsáveis pelos ritos sagrados. Todos e filhas de pessoas como Dona Eugênia, Nega, Luzia Lobato, Neca e tantos outros são os que ajudam e dão apoio a festa.Procissão dançada para o Divino Espírito Santo, com marambirés, curimbós e folias.

A celebração tem origem na Coroa, com registros do convento franciscano de Alenquer no século XIV em Portugal. Aqui no Brasil, é o exemplo perfeito da harmonização da cultura nativa com o cristianismo.
As personagens do Sairé
SARAIPORA

Todos têm muita fé no símbolo do Sairé. A saraipora é representativa da comunidade, reconhecida por ser uma pessoa de fé. Ela é a responsável por carregar o arco durante todos os rituais.
A lendária dona Maria Justa, que além de Saraipora, era foliã, artesã e doceira

A dona Maria Justa foi por mais de 30 anos Saraipora, cuidando do Sairé até o fim da vida. Um envolvimento que começou em uma promessa no dia em que dona Maria Justa quase morreu. Conta a história que ela estava no naufrágio de Sobral Santos, quando mais de 300 pessoas afogaram em Óbidos. Mesmo sem saber nadar, ela pediu ao São Sairé para protegê-la e salvá-la.Dona Dalva (prima do seu Dengo), filha da Cecília e neta da Xivica, saraipora há 3 anos.
A JUÍZA E O JUIZ
O casal de juízes este ano traz seu Osmar e dona Iracilda, com todo o respaldo da comunidade. São eles os responsáveis pela festa sagrada.
"Essa é uma celebração comunitária e as pessoas que tem representação não são atores, são papéis reais", explica Dengo
Seu Osmar organizando as orações do Divino Espírito Santo, em festa na comunidade do Laranjal, em 2017

Os mordomos trabalham com o juiz e juíza, são uma equipe de apoio que ajudam a pegar os mastros, preparar as comidas, organizar e produzir a festa. Os foliões tem a responsabilidade de rezar e cantar as folias. O festeiro convidado este ano para ser responsável pelo rito religioso é seu Dengo, cacique do Caranã.
Início: primeiro café da manhã do Sairé

Café da manhã tradicional na casa da dona Maria Benvinda, uma das guardiãs do Sairé, mulher do seu Silvito Malaquias Ribeiro, um dos fundadores do Espantacão.
A busca dos mastros no Lago Verde“Mar Abaixo” cantada por seu Dengo e Jackson

Na busca dos mastros, todos os catraieiros e foliões do Sairé se reúnem no sábado que antecede o evento para buscar dois troncos altos de árvores escolhidas por um dos juizes no entorno do lago Verde. Com o clima de muita alegria, é servido o tarubá logo cedo para quem quiser. O Espantacão e a folia do Sairé comandam a festa com músicas tradicionais.

"Desde sábado até quinta-feira o Lago Verde fica abençoado, marcando o tempo do Sairé, consagrando o espaço todo, uma tradição que se instala em Alter. Se a pessoa prestar atenção, nesse período ela vai ver muita coisa", explica Jackson Rego Matos.
O cortejo que leva os mastros da praia do Cajueiro até a praça do SairéLEVADA DOS MASTROS 
O capitão Camargo sobe desde a praia do Cajueiro em direção à praça do Sairé, na quinta-feira, em cortejo com a folia do Sairé e o Espantacão. A saraipora dona Dalva carrega o símbolo sagrado que representa a ligação de deus na Terra, na pureza da cabocla Borari.
A procissão do Beija-Fita antes de levantar os mastros

“Beija-Fita” cantada por seu Dengo e Jackson

O símbolo do Sairé é colocado para todos lembrarem da ligação de Deus com os homens.

"Esse é o momento de contato direto com o divino, que faz seu pedido e agradecimento. Ali se ritualiza a promessa divina de Deus, aconteça o que acontecer, ele nunca vai se separar dos homens", conta Jackson
A montagem e levantação dos mastros na nova praça do Sairé
O ritual sagrado todas as noites das 7h às 9h durante o Sairé

Seu Dengo e Jackson contam que o ritual é voltado para esse encontro com o Divino.

"Todas as letras que a gente canta ali no final a gente canta é para esse encontro. Esse lado do sagrado é muito forte. O que é interessante disso é que o Sairé preservou algo que nem na Europa tem mais: a fé", defende Jackson.

Texto assinado por Seu Dengo e Jackson Matos
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