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Opinião: Tempestade no Amazonas

Opinião: Tempestade no Amazonas

Redação / Web Amazônia
Por: Redação / Web Amazônia
11/09/2012 às 09h55 Atualizada em 11/09/2012 às 09h55
Opinião: Tempestade no Amazonas

Resido em Santarém, no Pará, uma cidade onde nasci e que nos meus tempos de moleque fugia em dias de chuva para jogar bola com os amigos nas areias da praia em frente a minha cidade. Era uma festa, as águas ainda não eram tão poluídas e ao correr na areia podia-se ouvir o ruído do atrito com os pés. Pescávamos caratingas, charutos, sardinhas, mandiís e às vezes, tínhamos o dissabor de pescar um baiacu, que logo em seguida, tirávamos do anzol e devolvíamos ao Tapajós. Perigoso e emocionante era pegar reboque nas pequenas embarcações que se dirigiam ao interior. Ignorávamos as hélices e íamos de bando. Segurávamos nas laterais dos barcos e depois de alguns metros adiante soltávamos para voltar nadando à margem. Dentre outras, estas são algumas das deliciosas lembranças que tenho de minha infância em Santarém.

Depois de algum tempo e há pouco dias antes do Sairé, completo 45 anos. No dia 10 de setembro de 1967 nasceu um moleque que aos 9 meses, em um acidente doméstico, perdeu a visão do lado esquerdo e que apesar de magrinho, esbanjava vitalidade e crescia como qualquer outro caboclo da região. Mais maduro, com 18 anos, descobri o halterofilismo. Minha massa corporal sempre entre os 66 e 68 kgs nos meus modestos 1,67 de altura, encontrou no halterofilismo uma inspiração. A princípio, apenas para me manter em forma, quando percebi que tinha força competitiva e que ao consultar uma súmula de atletas campeões de halterofilismo do sul do país em uma revista famosa, percebi que tinha chance, caso treinasse um pouco mais. Naquele momento, comecei a alimentar a possibilidade de dar um presente ao lugar onde nasci. De competir, de ver até onde poderia chegar e representar a cidade que amava.

Em 1991, com uma mochila nas costas, pela primeira vez, fui até a cidade de Cotia, em São Paulo, com o patrocínio da extinta Ginastic Center, de propriedade da professora Marlene Escher e com apoio técnico do professor Chiquinho Miranda, fiquei em quinto lugar na categoria Open. Em 1996 e 1997 voltei a competir em São Paulo e nos dois anos fui vice-campeão. Em 2000 venci o Brasileiro na categoria Open e Novos. O atleta de São Paulo, Demerval Smith, que ficou em segundo, depois da competição, sumiu e não voltou nem para receber a medalha de vice. Afinal, um atleta do interior do Pará tinha vencido um atleta de São Paulo, celeiro de campeões de levantamento de peso.

Ainda competi em Blumenau, Santa Catarina, em 2003 e fiquei em terceiro em minha categoria. Sem apoio, sem patrocínio, abandonei o esporte e fiquei parado exatos sete anos. Depois de algum tempo com o apoio irrestrito de minha esposa Luzia, que também estava comigo em 2000, quando venci em São Paulo, resolvi voltar. Um retorno doloroso. Quando voltava da academia, para ir ao primeiro andar em minha casa, tinha que ir me segurando, subindo degrau por degrau. Eram sete anos parados e não sete dias, tudo era doloroso e a respiração pedia para que eu desistisse. 

Ao contrário, continuei e aos 44 anos venci o Brasileiro na Master I / até 66 kgs, em São Paulo, no mês de junho. Com a medalha no peito, consegui o índice para o Pan Americano em Lajuan, na Argentina. Vejam só, uma subida vertiginosa. As dores já não eram intensas e eu progredia. Isto tudo estava acontecendo em 2011. Em agosto, corri atrás de patrocínio e com a Seleção Brasileira de Powerlifting desembarquei em Buenos Aires e fomos para Lajuan. Eu era o único atleta do Pará: a sorte estava lançada. Deus me premiou com belos momentos. Logo de cara bati o recorde de minha categoria, com 220 kgs no levantamento terra e 540 no total (colocar JORGE WANGHON na página do Youtube para assistir os vídeos). No podium com um uruguaio em segundo e um peruano em terceiro, eu estava nas nuvens e sabia que era apenas o começo.

Em 2012, entrei para o Bolsa Atleta de minha cidade. Tinha em minha planilha apresentada na Secretaria de Esportes do município, 4 competições para este ano: o Brasileiro (Itu - São Paulo), o Sulamericano (Cali – Colômbia), o Mundial de Master (Killen – EUA) e o Brasileiro de Levantamento Terra (Rio de Janeiro). O Brasileiro, em Itu, fui e mesmo com uma forte virose, venci e consegui o índice para o Sulamericano em Cali. 

Mas aí, o meu barquinho se viu em uma grande tempestade no Amazonas da vida e quase naufragou. Sobrevivi, mas com muitas avarias.


Estava tudo certo para ir ao Sulamericano: uniforme da seleção brasileira, dinheiro para o hotel, alimentação, inscrição, antidoping... Acontece que as passagens ficaram por conta de um patrocinador, que há mais de um mês negociei, visitava-o constantemente para saber se estava tudo certo, passando informações de voos e a que horas tinha que me encontrar com a seleção brasileira, quando iria, quando voltaria e parecia estar tudo certo. 

Fui tranquilizado que já estavam providenciando tudo. Iria viajar no dia 14 de agosto e minha viagem ficou adiada para o dia 16, por conta do patrocinador. Já não iria no mesmo voo junto com a seleção, mas tudo bem, chegaria lá e iria competir no dia 18. Acontece que quando fui na segunda-feira, 14, pegar os bilhetes das passagens, o patrocinador me disse em alto e bom som que não poderiam me ajudar, porque as passagens iriam custar mais de três mil reais e daquela vez não poderiam me patrocinar. 

Não vou divulgar o nome do patrocinador que fez isto comigo, não seria ético de minha parte e acredito até que ele possa ter suas razões, acontece que minhas malas estavam prontas e com elas os meus sonhos todos ali dentro. Nesta hora o chão falta e você acaba levando um nocaute técnico, procurando um apoio. Não tinha mais tempo para nada, estava tudo em cima da hora. Se tivessem avisado antes eu daria um jeito. Apenas minha esposa encontrou tempo para chorar. 

Sem sulamericano, não poderia ir ao mundial porque precisaria alcançar o índice em Cali para poder competir nos EUA. Pior ainda foi saber que hoje, dia 10 de setembro, data em que completo 45 anos, fico sabendo, através da internet, que o Colombiano que seria o meu principal adversário, na soma dos exercícios agachamento, supino e levantamento terra perderia para mim. Os meus três exercícios estão na média do campeão mundial de minha categoria, mas eu não estive lá, não competi e mais uma vez as barreiras estão fora do tablado, além dos halteres, acima dos meus treinos. 

Resolvi digitar apenas hoje este artigo porque estou muito bem em meus treinamentos e devo aos paraenses uma explicação. Muitos me viram na televisão, mostrando o meu esporte e travando uma luta para bater recordes e ir atrás de vitórias. Eu continuo indo para a academia. Treino duas horas por dia, de segunda a sexta. Estou melhorando a cada dia que passa e não sinto mais vontade de desistir. Minha intenção é ficar cada vez mais forte. Ainda tem uma competição em dezembro deste ano, mas com menos relevância. Agora não treino apenas para ficar forte fisicamente, é preciso focar no psicológico, no espiritual, porque os adversários são muitos e nem sempre estão ali, à minha frente para me enfrentar como atletas.

*É atleta da academia Djalma Lima & Irmão, campeão e recordista Brasileiro e Pan Americano de levantamento de peso, modalidade Powerlifting (agachamento, supino e terra).
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