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Mulheres que descobriram na fisioterapia a força para vencer o câncer

Mulheres que descobriram na fisioterapia a força para vencer o câncer

Redação / Web Amazônia
Por: Redação / Web Amazônia
09/10/2012 às 09h32 Atualizada em 09/10/2012 às 09h32
Mulheres que descobriram na fisioterapia a força para vencer o câncer

Basta uma roda, música para que a brincadeira comece. Não é ciranda e nem brincadeira de criança. São mulheres que descobriram na atividade física e na recreação, um jeito de driblar a tristeza e a dor quando descobriram o câncer.

Ana Lucia, Maria do Socorro, Maria Benedita e Ângela tiveram o mesmo sentimento - o mundo tinha desabado. Assim como elas, centenas de mulheres tiveram que retirar os seios por causa do câncer de mama. A maioria teve que passar por cirurgia, já que o combate à doença precisava ser radical, com a retirada total da mama.

A cirurgia em si, não se torna um peso para estas mulheres. Mas, desde a descoberta da[i]doença até a reta final do tratamento, muitas passam por processos dolorosos, como a falta de atendimento à saúde oncológica, quimioterapia, mudanças no corpo e na rotina do dia a dia, apoio psicológico e até mesmo da família.

Maria do Socorro Brasil, a “Brasil”, como é conhecida, tem nome de um país onde sua gente é guerreira. Ela é a mais pura prova disso. Em 2005, descobriu o câncer de mama. Perdeu a casa pelo fogo, num incêndio que provocou a queima de mais de 10 casas em seu bairro, Jurunas, em Belém. Brasil ficou com a roupa do corpo e o mais importante, seus quatro filhos, com vida.

O fogo queimou muita coisa, menos as lembranças que ela não consegue apagar. As lágrimas em seu rosto negro, numa expressão enorme de coragem, quando fala de seu primeiro marido: “Eu não sabia que tava doente. Acho que fiquei por que ele me batia muito. Ele me pisava, batia minha cabeça no chão. Quem sabe num foi isso...a violência...até que um dia ele me bateu, me bateu tanto, que meu olho tufou pra fora. Aí, eu decidi ser mulher...eu vou ser mulher...Não vou apanhar e enfrentei ele..."

Brasil tem 52 anos, vive com uma filha. É avó, enfrentou a violência do marido e o câncer de mama. Agora, tem um companheiro que a ama e a cuida desde as primeiras quimioterapias. O olhar de quem sofreu não esconde a alegria de quem lutou para viver várias vezes. E nos pés, descobriu o samba. É passista há vários anos, além de sair como “baiana” na Escola de Samba de sua comunidade “ Rancho, não posso me amofinar”. De um corpo escultural e uma garra no olhar, Brasil tem a força do povo brasileiro. Mesmo com tudo que passou disse sorrindo: “é muito bom viver!”. E seu grande sonho é reencontrar sua família, no Maranhão. Aos seis anos de idade veio para Belém e nunca mais teve noticias de sua família.

Para muitas mulheres começar de novo não é fácil. Não conseguem adaptar-se à nova condição. E sem apoio, sem informação, vivem angustiadas. E quando se tira a mama, tudo fica ainda mais difícil. Os seios são sagrados para muitas mulheres, não só pelo fato de que amamentam os filhos, mas ainda carregam o peso de viver numa sociedade machista, que olha a mulher como símbolo sexual, fazendo com que muitas sofram como se perdessem a feminilidade e sua sensualidade.

Assim foi para Benedita do Vale, 51 anos. Em 1999, descobriu o câncer de mama, quando ainda estava casada e mãe de quatro filhos. Quando retirou a mama, em 2001, o marido a abandonou. Benedita começou sua nova história, praticamente sozinha, sem o apoio da família: “ia pra quimioterapia sozinha, desmaiava no ônibus. Minha família era fria”. Disse Benedita, pensativa.

Ainda com toda tecnologia e avanço da ciência, a doença atinge centenas de mulheres a cada ano. O acesso a cirurgias plásticas e implantes mamários, garantidas por Lei, através do SUS, ainda é escasso. Elas esperam na fila e ainda enfrentam o preconceito. Taxadas de mutiladas ou incapazes de reconstruir suas vidas e seus projetos.

Brasil, Benedita e outras 80 mulheres descobriram que é possível continuar a acreditar na vida. Isso graças à ajuda de um projeto que vem fazendo não só a cabeça, o corpo e o peito da mulherada. É o Projeto Fisioterapia Recreacional. Os exercícios que ensinam como manter o corpo saudável, em especial a área do seio retirado, são os mesmos que ensinam como manter a mente e alma em estado de alegria.

Não é somente o corpo que importa para a fisioterapeuta Lúcia Barbosa, idealizadora do projeto. “O peito é literalmente o que abriga a alma da mulher. As dores físicas, muitas vezes não doem tanto quanto às da alma”. Diz Lucia. Ela descobriu que não bastava ensinar exercícios para melhorar o condicionamento das mulheres, mas que elas compreendessem a essência de se manterem vivas, mais confiantes, donas de suas histórias e que podem continuar de peito aberto para novas emoções. E foi na fisioterapia que Lúcia viu a possibilidade de ajudar, aliando os exercícios com carinho, atenção e alegria.

O projeto iniciou em 1997 na Associação Paraense de Combate ao Câncer de Mama - APACAM. Em 2005 passou a funcionar no espaço da Associação Voluntariado de Apoio a Oncologia - AVAO, no bairro de São Brás, em Belém. Neste espaço , as mulheres brincam, dançam e cantam com as atividades fisioterapêuticas em grupo para resgatar a autoestima, autoconfiança, autoimagem e restabelecer a amplitude dos movimentos comprometidos. Lucia desenvolve o projeto em parceria com a Psicooncologista Rosária Erichsen.

“Aqui mudou minha vida. Aprendi que tudo vale. Nasci de novo.” Disse animada Benedita. Mesmo depois de seu tratamento oncológico ela continua frequentando os encontros e contando sua história de esperança a outras que começam. Benedita recomeçou sua vida com um companheiro de 23 anos de idade. “ele me trata com uma mulher de verdade, que merece ser respeitada e amada”. E descobriu além do amor, a força para ganhar 14 medalhas no Atletismo. Ela começou a correr, num projeto social de esporte que conheceu. E não parou até hoje!... “Eu quero me candidatar à vereadora, num tenho muito estudo, num escrevo direito e nem leio, mas quero escrever um livro, quero fazer muitas coisas pelas mulheres, pelos outros, pela AVAO...Tenho um grande sonho de conhecer o Luciano Huck...Ai, meu Deus, eu nem sei se vou aguentar se eu encontrar com ele....Você que é jornalista, você me ajuda a me encontrar com ele...por favor!”, disse emocionada.

Ana Lucia, 53 anos, descobriu após a retirada da mama que a música estava na veia. O tratamento só aguçou a sensibilidade musical de Ana Lucia, que não para mais de compor. Nos versos conta sua trajetória de esperança. Compôs a musica que embala as atividades da AVAO e o Rap que anima suas companheiras a encarar a doença com alegria. Ana Lucia encontrou no projeto a força para continuar: "Depois que vim pra cá, mudou tudo! É tudo diferente. Eu não deixo nada para trás. O que eu quero fazer, eu faço hoje! Eu já deixei tanta coisa...Hoje já não deixo mais. Hoje tenho mais vida. Como descobri que gosto de música, canto, vou fazer faculdade. Licenciatura em Música. Quero ouvir minhas músicas na rádio...”

Angela Tavares, 52, viúva, mãe de três filhos e avó de 4 netos, hoje vive para dançar e rir durante as atividades do projeto. Perdeu o marido para o câncer. Mas continua vivendo e acreditando que dá para fazer tudo, se permitir a enfrentar a doença sem se abater. "Todas as quartas, estou aqui rindo e feliz em saber que minhas companheiras também estão felizes. Eu era contadora, estou aposentada. Mas não quero parar. Aos 40 anos descobri o câncer...Mas ele não me achou mais...Estou curada e vivendo mais!".

“As mulheres chegam tristes, cabisbaixas e sem perspectiva. Em pouco tempo falam, riem e falam em sonhos. O câncer faz com que elas percam o seio, ou até mesmo os dois, mas nunca a vontade de ser feliz” - Vibrou Lucia.

Durante a reportagem, ouvindo essas mulheres tão fortes, senti uma enorme felicidade. Eu não estou sozinha. Conhecer, escrever um pouquinho dessa história, sem dúvida é um aprendizado indescritível...Não podia relatar apenas...Era preciso sentir...Não por estar tratando também de um câncer de mama, mas por saber que somos iguais e que podemos fazer mais pelo outro. Minha forma foi essa. Contar que existem guerreiras que renascem das cinzas e se tornam verdadeiras fênix, como disse essa fisioterapeuta incrível, Lucia Barbosa.

*Sou jornalista e desde Janeiro de 2012, vivo a saga de mulheres que acreditam que a cura está em muitos sentimentos. Dedico essa reportagem, feita agora em Setembro, a fisioterapeuta Lucia Barbosa, Ângela, Benedita, Ana Lucia, Brasil e ao Oncologista Sâmio Pimentel.
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