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Opinião: A resistência do Tapajós

Opinião: A resistência do Tapajós

Redação / Web Amazônia
Por: Redação / Web Amazônia
03/12/2014 às 14h00 Atualizada em 03/12/2014 às 14h00
Opinião: A resistência do Tapajós


Quando estávamos à caminho da comunidade de São Luiz, fomos comunicados, que por conta da caravana, houve a suspensão das audiências públicas que seriam realizada para a exploração das riquezas florestais da Flona Itaituba 1 e Flona de Itaituba 2.

Uma vitória importante, embora parcial, que reafirma o poder de mobilização dos povos do Tapajós. Seguimos juntos lutando por outro futuro e enfrentando os donos do poder!

O Povo Munduruku

Conhecidos como guerreiros cortadores de cabeça, os Munduruku ocuparam um vasto território conhecido como Mundurukânia (leste do alto Tapajós, Rio Madeira e Tocantins).

Segundo o mito de origem do povo Munduruku, existem vários guerreiros criadores, sendo o mais importante dos seres, o Karosakaybu. Em torno dele, os índios organizaram um ciclo composto por seis narrativas míticas que tratam o processo de criação de paisagens, animais e o do próprio povo Munduruku.

Foi Karosakaybu quem criou a primeira aldeia Munduruku, Wacopadi, localizada na região dos campos.

Karosakaybu tem a capacidade da transformação. Se quiser, pode transformar paisagem de campo em lugares encachoeirados. Podia se transformar em anta, porco do mato ou qualquer outro animal ou transformar seres humanos em animais.

Karosakaybu dotou todos os Munduruku de capacidade de transformação.

Assim, seres humanos e animais eram considerados parentes e podiam se comunicar entre si. Karosakaybu, apesar de não viver com os índios, não abandonou sua existência terrestre, como acontece em outras cosmologias. Por isso, o sagrado para os Munduruku está em seu contato com a natureza.

Povo guerreiro, os Munduruku tem uma história de enfrentamentos e resistência. Hoje, sua principal guerra está na defesa de seu território, constantemente ameaçado por garimpos, madeireiras e hidrelétricas.

Em 2013, saíram da região do Tapajós, foram para o Xingú e protagonizaram a mais longa ocupação do canteiro de obras de Belo Monte.

Demonstram uma enorme capacidade de organização. Hoje, são cerca de 12 mil Munduruku vivendo somente na região do Tapajós. As “formigas vermelhas”, denominação em alusão aos guerreiros Munduruku que atacavam em massa os territórios rivais, não aceitam o projeto de morte do governo federal. Rios para a vida, não para morte!

A Cronologia das Arbitrariedades

A violência que cai sobre os ombros daqueles que se opõe ao avanço dos “grandes projetos” na Amazônia é cada vez maior. Em cada árvore derrubada, em cada direito violado, em cada metro de arame farpado que avança sobre as comunidades tradicionais é deixado um rastro de sangue e miséria para as atuais e futuras gerações.

1. Entre 2006 e 2008 o governo federal fez uma espécie de inventário do rio Tapajós. O objetivo era analisar os pontos mais viáveis para a construção de hidrelétricas.

2. Em 2011, sem fazer a consulta prévia aos povos indígenas e ribeirinhos, o governo federal edita a resolução nº 3 do Conselho Nacional de Política Energética, afirmando que irão ser construídas as usinas hidrelétricas de São Luiz do Tapajós, Chacorão e algumas hidrelétricas nos afluentes Juruena e Jamanxin.

3. Em 2012, percebendo que as construções das hidrelétricas inundariam parte das áreas de preservação ambiental, o governo federal baixa uma medida provisória que reduz parte dessas áreas.

4. Ainda em 2012, os povos Munduruku enviam à Brasília uma carta de repúdio à redução das áreas de proteção ambiental.

5. A resposta do governo foi iniciar o processo de licenciamento ambiental das hidrelétricas ainda em 2012. Os Munduruku acionam o MPF e alegam que não foi respeitada à consulta prévia. Por decisão judicial, é revogado o processo de licenciamento até que se faça a consulta prévia.

6. Em novembro de 2012, o governo realiza na aldeia Teles Pires uma operação militar desastrosa no alto Tapajós, que culminou com a morte do indígena Adenilson Kirixi.

7. Em 2013, menos de seis meses da operação na aldeia Teles Pires, o governo federal decide fazer uma nova operação militar na região.

8. Em Abril de 2013, os Munduruku lançam uma proposta de consulta prévia.

9. Em maio de 2013, um grupo de indígenas Munduruku da região do Tapajós foram para a região do Xingú e promoveram a maior ocupação do canteiro de obras na história de Belo Monte.

10. Em junho de 2013 foi realizado um acordo com o governo federal que afirmava que nenhum pesquisador entraria na região sem que antes houvesse a consulta prévia.

11. Em julho de 2013 o acordo é descumprido. Os Munduruku lançam uma nota de indignação afirmando que não vão ficar passivos diante do desrespeito dos seus direitos.

*É acadêmico de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), militante do movimento de Juventude Juntos! e coordenador da União dos Estudantes de Ensino Superior de Santarém (UES).
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