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Projeto Quilombo leva saúde para quilombolas do interior do Pará

Projeto Quilombo leva saúde para quilombolas do interior do Pará

Redação / Web Amazônia
Por: Redação / Web Amazônia
22/04/2009 às 18h14 Atualizada em 08/05/2011 às 22h16
Uma típica manhã de chuva do inverno amazônico desperta os moradores da comunidade Jamari, às margens do rio Trombetas, no Oeste paraense. Renata de Jesus tem oito anos e é uma das primeiras a chegar ao espaço onde ela e outros moradores da localidade receberão atendimentos médicos. Todo mês, eles recebem a visita do barco Barão do Mar, que chega com uma equipe de 12 profissionais a bordo. São médicos, enfermeiras e técnicos que estão ali para prestar assistência curativa e preventiva.

Desde 2000, o grupo embarca mensalmente em Santarém com destino a diversas comunidades remanescentes de quilombos que habitam o rio Trombetas. Ao todo, mais de 3.300 pessoas de 23 comunidades recebem a assistência - são cerca de 400 atendimentos por viagem. Intitulado Quilombo, o projeto é fruto de uma parceria entre a Mineração Rio do Norte (MRN) e a Fundação Esperança, de Santarém.

Após o desembarque, a equipe de Saúde vai, aos poucos, montando com lençóis as divisórias dos consultórios improvisados em um dos barracões da comunidade. Para um grupo ainda tímido de vinte moradores, o dia se inicia com pequenas palestras educativas, onde são abordados temas relevantes para a saúde local, como Higiene, Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS, Saneamento Básico e Desnutrição.

Depois das palestras, uma das auxiliares de enfermagem distribui as fichas de atendimento e inicia a triagem dos pacientes, anotando peso e pressão no prontuário, e fazendo o encaminhamento. Maria Raimunda de Jesus, 43 anos, é uma delas. Mãe de Renata, Maria teve dez filhos. Ainda no início do projeto, quando estava grávida da caçula, fez o pré-natal com a equipe da Fundação Esperança. Depois que nasceu, Renata passou pelo acompanhamento nutricional. "Esse é o único atendimento médico que nós temos aqui. A Renata me pediu que a trouxesse hoje, ela quer se consultar", explica dona Raimunda, que faz consultas periódicas para acompanhar sua hipertensão e para renovar o estoque de remédios que controlam a doença.

Com cerca de 20 famílias, a comunidade Jamari é uma das mais carentes da região. As famílias vivem basicamente da produção da farinha, da coleta da Castanha-do-Pará e da extração do óleo de Copaíba, em períodos alternados. De janeiro a maio, os homens chegam a passar períodos de 20 a 30 dias na mata, coletando Castanha. No segundo semestre, tem início a produção do óleo, muito utilizado no tratamento de infecções e inflamações por suas propriedades medicinais. "Alguns homens ficam vários meses direto na mata, voltam para casa só no fim do ciclo", ressalta o coordenadorda comunidade, Carlos José dos Santos, 35 anos.

A alimentação diária, além da farinha, inclui carnes de caça e peixes. "Os moradores do Jamari têm tendência à obesidade, à diabetes, má circulação e à pressão alta", enfatiza a enfermeira Ethel, enquanto atende a paciente Ieuza de Jesus Cordeiro. Com 24 anos e pesando mais de 100 kg, Ieuza também é filha de Dona Raimunda. Desde a última consulta, ela ganhou seis quilos. No resultado do exame de sangue, o colesterol aparece alterado. A enfermeira orienta a paciente a evitar o exagero em comidas gordurosas - como a pele de peixe e a Castanha-do-Pará. "Além de muita farinha, eles consomem alimentos gordurosos e carregados no sal", informa Ethel, enquanto prescreve a medicação. Com a receita nas mãos, Ieuza passa na farmácia, onde a auxiliar farmacêutica Helen Sousa está distribuindo os medicamentos para os pacientes.

Chega a vez de Renata. No consultório, onde entra só, se queixa ao Dr. Raimundo Nonato Fernandes de uma tosse que a acompanha há algumas semanas. O prontuário da paciente indica uma infecção urinária por ocasião da última consulta. Ele solicita, então, um exame de urina. Assim que sai do consultório, Renata vai direto à técnica de laboratório, Rosemeire Silva, para realizar o exame. A estrutura da equipe permite que exames de rotina - urina, sangue e gravidez - sejam realizados ali mesmo. Depois, com os resultados em mãos, os pacientes retornam à consulta com o médico no mesmo dia. "Exames mais complexos são enviados para laboratórios de Santarém. O paciente tem que esperar até a próxima visita da equipe para ter os resultados", informa Rosemeire. Os exames laboratoriais chegam a quase três mil ao ano.

Já medicada, Renata vai encontrar com as amigas e brincar. A menina cursa a 2ª série na escola do Jamari - uma escola-pólo, que atende crianças de outras cinco comunidades até a 7ª série do ensino Fundamental. É justamente numa das salas de aula da escola - erguida sobre palafitas, assim como todas as construções da comunidade - que a enfermeira Carmélia Esselin ministra mais um treinamento para as promotoras de saúde, mulheres que são voluntárias para ajudar na condução das ações de saúde preventiva em suas comunidades. Em cada visita do projeto Quilombo, um tema diferente é abordado. Planejamento familiar, nutrição infantil, saúde e adolescência, sinais vitais, primeiros socorros, hipertensão arterial, saúde e nutrição dos diabéticos são alguns dos assuntos que já passaram pela sala de aula.

Ao todo, dez mulheres do Jamari e de comunidades vizinhas são voluntárias dos treinamentos. A intenção é que elas sejam uma ponte entre a equipe de saúde e os comunitários. "Como levamos um mês para voltar, elas podem orientar as pessoas, ajudando a identificar alguma doença através dos sintomas", enfatiza Carmélia. O trabalho nem sempre é fácil. "Temos algumas dificuldades de chegar às pessoas, porque as casas são muito espalhadas, mesmo sendo da mesma comunidade. Temos que ir remando", explica Dinelza de Jesus, 30 anos, uma das promotoras. Emergências e casos mais graves são encaminhados para o hospital de Porto Trombetas ou Oriximiná.

Na sala ao lado de Carmélia, o técnico de enfermagem Michael Oliveira organiza o atendimento do programa de Saúde da Criança. "Nosso trabalho é principalmente com as mães, informando fontes alternativas de alimentação e nutrição, reforçando a necessidade de tratar a água consumida". Cerca de 200 crianças são atendidas a cada mês. O acompanhamento inclui verificação de peso e crescimento. Desde o início do projeto, a desnutrição infantil caiu de 39% para 2%, nos dados referentes a 2008.

Atualmente, 100% das grávidas identificadas recebem atendimento pré-natal através do projeto. Infelizmente, não foi o caso da promotora Dinelza. Há nove anos, ela deu à luz seu filho Tiago. Durante a gravidez, além de não fazer o pré-Natal, ela contraiu malária. Os remédios ingeridos para combater a doença afetaram o bebê, que nasceu com toxiplasmose. O projeto teve início logo depois do nascimento de Tiago e, desde então, ele vem sendo acompanhado. "Hoje ele já anda e consegue firmar a cabeça", diz a mãe.
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