27/05/2010 às 14h32Atualizada em 08/05/2011 às 22h16
Por Marcos Santos (*)
Faço este relato como forma de chamar a atenção das autoridades responsáveis pela saúde pública em Santarém, e também para provocar o Ministério Público Estadual, que infelizmente em nossa cidade tem pouca atuação quando o assunto são os atos administrativos do governo municipal com o setor da saúde. Pessoas morrem todos os dias pela falta de um serviço decente e humano nas unidades médicas do país.
Pois bem. Na madrugada de terça-feira (25), sentindo fortes e insuportáveis dores no estômago, fui levado, à minha revelia, à emergência do PSM (Pronto Socorro Municipal). A caminho do hospital, o taxista puxa assunto e diz que acabara de deixar um paciente, parente seu, naquela unidade de saúde. O motorista já me antecipava o que eu encontraria por lá: “Você vai sofrer mais quando chegar ali do que a dor que está sentindo agora, amigo”.
O homem ficou esperando alguma resposta à sua observação, mas naquele momento ignorei qualquer tentativa de conversa. A dor era maior. Fechei os olhos, torcendo para que o carro chegasse o quanto antes no hospital municipal. De casa para o pronto socorro eram apenas algumas quadras, mas a dor fez o caminho parecer mais longo.
Enfim, chegamos.
Fui levado por minha acompanhante até a recepção, onde a atendente, com um humor abaixo da linha de cintura e um sentimento indiferente com as pessoas que recorrem diariamente ao serviço de saúde pública ofertado pelo município, fez o meu atendimento. A mulher me pediu identidade e começou com uma sabatina interminável.
Perguntou nome da mãe, bairro onde morava, idade, data de nascimento, se aquela era a primeira vez que recorria ao hospital e muitas outras perguntas, que considerei desnecessárias naquele momento. Se o meu problema fosse mais grave, certamente teria morrido sem antes responder a todas as perguntas e sem ao menos receber socorro médico. Por algum momento, me perguntei: “Meu Deus, o que estou fazendo neste lugar?”
Durante todo este tempo trabalhando na imprensa santarena produzi matérias que retrataram o sofrimento dos pacientes e também destacaram o atendimento precário na emergência do hospital municipal em Santarém. Os relatos eram surpreendentes e chocantes. Nas minhas reportagens, as pessoas sempre se queixavam de maus tratos dos funcionários, além do descaso e abandono pelo Poder Público com o setor da saúde. Para mim, tudo servia para um bom lead e uma boa matéria para fazer capa e vender jornal. Nada mais que isso.
Mas desta vez, porém, eu era o próprio personagem da minha matéria e pela primeira vez senti na pele o sofrimento dessa gente. Hoje, percebo que meu papel como jornalista estava aquém do verdadeiro propósito jornalístico. Por um instante fiz uma pausa nos meus pensamentos, suportando cada vez mais aquela dor desgraçada e buscando encontrar alguma forma de mudar essa situação. Infelizmente, não posso fazer muita cosa, a não ser continuar escrevendo e denunciando o estado de abandono deste importante setor para o cidadão.
Alguns minutos se passaram até que finalmente a moça encerrou aquela sessão de perguntas e me encaminhou ao setor de triagem. O enfermeiro que me atendeu, acostumado a atender tantos doentes, tratou-me como mais um pobre coitado e fez seu serviço analítico superficialmente. Tirou minha pressão, preencheu mais papel e mandou que aguardasse no corredor para ser atendido pelo médico plantonista. Àquela altura, já me retorcia de tanta dor. Meu corpo estava frio e transpirava suor gélido e preocupante. A porta do consultório do médico finalmente abriu. Uma sala pequena e desconfortável. O profissional começou o atendimento.
Voltando um pouco no tempo, lembro-me que duas pessoas antes de mim foram atendidas pelo ‘doutor’. E, curiosamente, ambas saíram com menos de cinco minutos de consulta. Pensei: “Ou o caso delas não é tão grave ou é um médico excelente”.
Quando o ‘doutor’ iniciou minha ‘consulta’ percebi o porquê da brevidade no seu atendimento às pacientes anteriores a mim. O cara nem perguntou o que eu estava sentindo, nem me olhou nos olhos. Pegou a papelada, carimbou, assinou as vias, e entregou dizendo:
-Tome este medicamento, faça uma ultrassom e aguarde até o remédio fazer efeito, depois volte.
A dor era tanta que não consegui questionar com ele o motivo pelo qual fez um atendimento tão superficial. Simplesmente segui a ‘orientação’ e retornei ao enfermeiro. Lá, ele me aplicou uma dose de buscopan, na veia. A medicação não fez efeito. Retornei e novamente outra aplicação, desta vez, de um remédio mais forte. Fiquei com um troço ligado à mão, que tive que carregar até que melhorasse. O enfermeiro disse que a dor passaria e que pela manhã eu deveria retornar para tentar fazer a tal ultrassom.
Fui pra casa, carregando aquele trambolho, passei pelas pessoas que estavam na sala acompanhando seus doentes. Os olhares delas se voltaram para mim e pareciam pedir socorro.
Antes de deixar o hospital, fui levado pela minha acompanhante à emergência do PSM. Fiquei estarrecido com o que presenciei. Um amontoado de doentes, que agonizavam sobre as macas e também pelo chão. Olhares tristes e desesperados. Neste instante, minha dor declinou diante do sofrimento daquelas pessoas. Crianças, jovens e idosos entregues à própria sorte, esperando um milagre para poderem voltar para suas casas. Crianças enfermas foram largadas na própria recepção e ali ficaram.
Aliás, havia mais pessoas deitadas sobre as cadeiras tomando soro. O calor era infernal. Os parentes improvisavam abanadores com pedaços de papelão para suportar o clima quente. Choro. Ouve-se muito choro de crianças. As mães, aflitas, não escondem o medo de perder o filho naquelas condições. O drama é coletivo e a solidariedade entre os acompanhantes logo se espalha, aumentando a esperança de familiares e doentes. As pessoas buscam se ajudar, já que ninguém do corpo médico do HM aparece para dar uma palavra de conforto às vítimas do descaso.
Enfermeiros e demais funcionários assistem tudo passivamente. Uns veem TV, enquanto outros desfilam de um lado para o outro, torcendo para que a madrugada acabe logo e traga o dia seguinte para também voltarem para casa.
-Toda noite é assim. Todo dia é assim. Aqui está superlotado e não tem médico para atender a demanda – disse um enfermeiro, fugindo a novos questionamentos quando disse que era jornalista.
Deixei o hospital sentindo ainda mais dores. No caminho de volta pra casa, aquelas imagens insistiram em me acompanhar. Demorei a pegar no sono e fiquei pensando no sofrimento de centenas de pessoas que perdem suas vidas por causa de um sistema falho e inoperante. Dormi dopado e quando acordei no outro dia pensei que tivesse tido um pesadelo, mas logo percebi que não foi um sonho. A marca da agulha que anestesiou meu corpo estava bem visível e me trouxe de volta àquela madrugada que não vou esquecer jamais. A imagem do sofrimento de dezenas de pessoas me acompanhará por um longo tempo ainda.
A partir desse dia nefasto, decidi me tornar mais vigilante e cobrar todos os dias das nossas incompetentes autoridades um serviço mais digno e mais humano à população. Acionarei o Ministério Público se preciso for e exigirei que o órgão ministerial também cumpra seu papel fiscalizador e passe a ser mais atuante, pois esta é a sua função.
O MPE precisa e deve acompanhar in loco o drama dos cidadãos santarenos na emergência do PSM, se possível durante a noite. A imprensa também precisa ser mais independente e livre para mostrar a verdade nua e crua e não se prender aos releases publicitários, que dão destaque aos incompetentes e responsáveis pelo caos na saúde pública em Santarém. É hora de dar um basta nesta situação de calamidade.
Eu não serei cúmplice desse crime atroz que é cometido todos os dias contra pessoas inocentes!
* É jornalista, editor do Portal na Hora e do jornal Tribuna do Tapajós
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