25/10/2010 às 22h02Atualizada em 08/05/2011 às 22h16
Marcos Santos
Não é de hoje que recai suspeita sobre a possível contaminação das águas do rio Tapajós pelos esgotos que despejam diariamente dejetos na praia em frente à cidade. Ao longo da orla de Santarém existem vários pontos de esgoto a céu aberto sem nenhum tipo de tratamento.
Semana passada foi tornado público um estudo feito por alunos do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Pará (UFPA) detalhando o nível de poluição do rio. Os dados ainda não estão disponíveis para consulta pública, porém, não devem causar espanto se confirmar o que todo mundo desconfia: a poluição das águas do Tapajós.
Em 2007, estudo semelhante foi feito pelos estudantes David Moura Marinho e Lidiane Ingrind dos Santos Pedroso para embasar seu TAO (Trabalho Acadêmico Orientado), apresentado ao Instituto Esperança de Ensino Superior (IESPEs) para a obtenção do título de Tecnólogo em Gestão Ambiental na Amazônia.
Naquela oportunidade, os exames feitos em amostras de águas coletadas pelos acadêmicos confirmaram a existência de coliformes fecais em praticamente toda área de estudo, ou seja, nos sessenta pontos de esgotos existentes na orla de Santarém. As análises foram feitas no laboratório da UFPA. O ponto que mais apresentou grau de contaminação está localizado em frente à praça Tiradentes, onde funciona precariamente um terminal de cargas e passageiros.
David Marinho, hoje tecnólogo ambiental formado, mostra preocupação com a situação degradante daquela parte da orla que, para ele, não resta dúvida, está com alto teor de contaminação por bactérias nocivas à saúde humana e, principalmente, danosas ao meio ambiente. Ele lembrou que a recente pesquisa feita pelos acadêmicos da UFPA acentuou-se nos pontos inicialmente observados por ele e sua colega de TAO, em 2007. Os locais são praticamente os mesmos e, portanto, o resultado desse trabalho deve mostrar apenas que houve aumento no grau de contaminação das águas do rio Tapajós pelos esgotos a céu aberto existentes na extensão da área que vai do bairro do Mapiri à Vila Arigó, no bairro da Prainha.
A pesquisa feita em 2007 constatou, portanto, que esses efluentes contaminam realmente as águas do rio Tapajós, no trecho da orla fluvial.
Vegetação na praia revela poluição da orla Quem passeia diariamente pelo calçadão da orla de Santarém e lança olhares em direção à praia, neste período de estiagem, se espanta e, ao mesmo tempo, se admira com a vegetação que se avoluma nas areias. Um leigo, certamente, enalteceria a natureza por sua força em resistir às ações do homem, pois o verde que brota das areias seria um sinal de que o meio ambiente está protegido. Mas não está. E é exatamente o surgimento desse tipo de vegetação arbustiva na praia que preocupa os biológos. A protuberência de matos, árvores e plantas é a forma encontrada pela própria natureza de mostrar que está sendo alvo de depredação ambiental. Os pontos de esgotos despejando seus efluentes líquidos diretamente nas praias e, consequentemente no trecho do rio Tapajós, revelam possivelmente a poluição da praia, que está sendo adubada com a matéria orgânica carreada justamente com os dejetos dos esgotos.
Especialistas afirmam que essa vegetação, além de descaracterizar o visual da orla fluvial do município causa impacto ambiental irreversível e compromete a biodiversidade aquática de várias espécies de peixes, assim como outras formas de vida inseridas nesse ambiente. O tecnólogo em gestão ambiental, David Marinho ressalta em seu estudo que os líquidos despejados diretamente nas águas do rio Tapajós são oriundos de águas servidas de usos domésticos e industriais, interligados irregularmente nas redes de esgotos pluviais e que não recebem nenhum tipo de tratamento adequado, provocando uma série de danos ao meio ambiente.
O risco desses agentes poluentes causarem prejuízos à saúde humana também é iminente, uma vez que a população que reside nas áreas próximas à orla consomem peixes contaminados ou utilizam a água em seus afazeres domésticos. "Essa água pode causar infecção intestinal e o surgimento de outras doenças", observou David Marinho, criticando também a presença de embarcações ao longo da orla, que despejam seus dejetos e lixo diretamente nas águas do rio Tapajós. "É preciso que seja feito algo para controlar os índices elevados de contaminação por parte dos esgotos e desenvolver campanhas educativas e de conscientização dos moradores das comunidades comunidades mais próximas ao rio, que despejam suas águas servidas nos esgotos da cidade", finalizou.
Tecnólogo orienta população sobre cuidados Hoje, formado, o tecnólogo em gestão ambiental David Marinho, diz-se apreensivo diante deste cenário estarrecedor que predomina na orla fluvial da cidade, principalmente porque os esgotos não recebem nenhum tipo de tratamento para amenizar o grau de poluentes que são lançados todos os dias nas águas do rio Tapajós.
Além disso, ele ressalta que a população também não recebe orientação devida dos organismos públicos ligados ao meio ambiente sobre os cuidados que as pessoas devem tomar com a água servida no uso doméstico, que deveria ser lançada em sumidouros, porém, a maioria das residências não possui esse dispositivo, que faz com que toda matéria orgânica caia diretamente nas canaletas públicas projetadas para coletar apenas águas pluviais cujo curso natural é a água do rio.
David explicou também que os esgotos domésticos, inclusive fecais das residências estão interligados diretamente à rede de esgoto de drenagem pública, àquele que desagua na orla fluvial. Segundo ele, a poluição é facilmente constatada pela presença de vegetação na areia da praia. "O bioindicador de que as areias estão sendo contaminadas com matéria orgânica é a vegetação, que surge em virtude da adubação da areia, que é um material inerte e que está sendo germinado justamente pela contaminação do local por matérias orgânicas", explica David Marinho.
Conforme o tecnólogo, o estudo feito em 2007 já indicava polição da orla de Santarém pela presença dos esgotos a céu aberto. "O alto índice de contaminação ficou acentuado em quatro pontos específicos da cidade, inclusive com a presença de coliformes fecais e totais. Não houve, certamente, redução do grau de poluição do rio, nas áreas pesquisadas", disse David.
Segundo ele, no levantamento pesquisado à época, verificou-se quatro pontos de contaminação na praia em frente à cidade: Vera Paz, Mercadão 2000, praça Tiradentes e Museu João Fona.
Rede de tratamento esgoto é inviável para Santarém Numa análise técnica, David Marinho afirma que a implantação de uma ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) é inviável para a atual realidade do município. Segundo ele, na orla de Santarém não há um lugar apropriado para implantar este sistema, que exige uma área expansiva para suportar diariamente o material despejado pela rede de esgoto da cidade. Conforme suas explicações, o mais adequado seria, realmente, a estação de tratamento, porém, como não houve planejamento prévio, hoje, essa alternativa é praticamente impossível de ser aplicada. "Na administração passada, por exemplo, foi planejada a criação de um tubo coletor que captaria todo dejeto lançado pelo sistema de esgoto público e levado para uma estação de tratamento, que possivelmente seria construído numa área onde funciona uma substação da Rede Celpa, na rua do Imperador. Havia esse projeto, porém, ele ficou apenas no papel", observou David Marinho, sugerindo outras alternativas como forma de ajudar a reduzir o grau de poluição das águas do rio Tapajós causada pelos esgotos que funcionam a céu aberto na orla fluvial.
De acordo com o tecnólogo, poderia ser desenvolvido um filtro ecológico compacto para reter parte dessa poluição. O mecanismo, afirma, tem custo baixo, bem planejado poderia amenizar esse problema. O filtro a que se refere David Marinho foi objeto de um estudo acadêmico em 2007. Com o uso do filtro, instalado nos pontos de despejos dos esgotos no rio, verificou-se, em escala reduzida, sensível melhora quantitativa dos efluentes. David ressalta que o filtro pode alcançar resultados expressivos se usado em grande escala. "Nosso estudo mostrou que esse projeto é viável, resta apenas o interesse do Poder Público", disse.
Filtro ecológico - Define-se filtro ecológico como sendo um equipamento compacto e removível, adaptados nos terminais de esgotos públicos a céu aberto, de forma cúbica, composto por um conjunto de elementos desmontáveis, tendo como núcleo principal uma cápsula central cilíndrica, onde se acondicionam uma série de células filtrantes, formadas por materiais que retenham elementos físico-químicos, assim como de aspecto bacteriológicos, para posterior eliminação, dando qualidade ambiental aos efluentes despejados na água. (Matéria publicada originalmente no jornal Tribuna do Tapajós)
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