Por: Redação / Web Amazônia
24/11/2007 às 13h48 Atualizada em 08/05/2011 às 22h16
Sobre a baleia encontrada nas águas do rio Tapajós e que morreu à espera de socorro, o gerente regional do Ibama, Daniel Cohenca explica o seguinte:
Baleia minke-anã encontrada no rio Tapajós
Histórico Resumido
Em 14 de novembro de 2007 uma baleia foi avistada na comunidade de Piquiatuba, município de Belterra, no rio Tapajós na Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós. A equipe da Flona foi informada por volta das 16:00 horas, do mesmo dia, quando solicitou apoio do Centro Mamíferos Aquáticos (CMA), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Uma equipe composta pelo CMA, NUFAS/IBAMA-Santarém e Flona Tapajós se deslocou imediatamente para o local, verificando que o animal se tratava uma baleia-minke-anã (Balaenoptera acutorostrata). Assim que retornou a Santarém, a Diretoria de Conservação da Biodiversidade - DIBIO/ICMBio foi avisada e ainda na madrugada do dia 15 solicitou o apoio do Instituto Baleia Jubarte (IBJ)para auxiliar no resgate deste animal. Para isso o IBJ enviou o médico veterinário Milton Marcondes que se deslocou de Caravelas - BA para Santarém - PA, chegando na madrugada do dia 16.
A baleia permaneceu em Piquiatuba no dia 15, porém, mesmo com a insistente solicitação de que fosse mantida distância da baleia pela equipe do ICMBio, IBAMA, ZOOFIT e Corpo de Bombeiros de Santarém, a presença de embarcações e pessoas ao seu redor provocou o deslocamento do animal no início da noite, só voltando a ser localizada no dia 17 em Jaguarituba, na outra margem do rio Tapajós.
A equipe de resgate se dirigiu ao local utilizando um helicóptero do IBAMA, mas ao chegar lá a baleia já havia se deslocado devido aos maus-tratos infringidos por um ribeirinho que a chutou e feriu com uma vara. Segundo relato dos moradores de Jaguarituba, o animal deixou o local sangrando. Foi feito um esforço para localizá-la neste mesmo dia, tendo sido utilizado o helicóptero e uma lancha rápida, porém sem sucesso.
Na manhã do dia 18 a baleia apareceu na comunidade de São José do Arapixuna, na entrada do rio Arapiuns distante cerca de 80 km de Jaguarituba. A equipe de resgate se deslocou de helicóptero ao local e encontrou o animal sendo mantido em água em torno de um metro de profundidade, próximo à margem do rio.
Enquanto a equipe de resgate realizava os primeiros exames do animal e prestava os primeiros-socorros, uma lancha saiu de Santarém trazendo cerca de 500 metros de rede de malha grossa que seria usada para cercar o animal e mantê-lo em semi-cativeiro pelo tempo necessário para que fosse avaliado seu estado de saúde, realizada a estabilização de seu quadro e autorizado seu embarque para transporte até o mar. A baleia minke-anã mediu 5,51 metros de comprimento, e foi estabelecido que se tratava de um indivíduo de sexo masculino.
A turbidez da água não permitiu a visualização do animal, motivo pelo qual o veterinário do IBJ mergulhou e através de palpação examinou todo o corpo do animal, determinando o local da ferida produzida no dia anterior e constatando que era um ferimento superficial. Por se considerar que um animal sob estresse apresenta queda da resposta imunológica, estando mais sujeito a processos infecciosos, foi iniciado tratamento com antibiótico de largo espectro de ação (oxitetraciclina, 20 mg/Kg) por via intramuscular.
A baleia foi medicada, seu dorso que estava exposto, foi coberto com lençóis brancos umedecidos para evitar queimaduras pelo sol. Sua freqüência respiratória foi monitorada por uma hora, inclusive durante a aplicação dos medicamentos. Pretendia-se coletar amostras de sangue para realização de hemograma e bioquímica sérica, a fim de se avaliar a possibilidade do animal apresentar alguma infecção e para se avaliar o funcionamento do fígado e dos rins.
Estas informações iriam permitir avaliar se o animal estava apto para ser transportado para o mar nos dias subseqüentes ou se seria necessário algum tratamento antes que de se tentar o transporte. Antes que o sangue fosse coletado o animal se agitou e começou a se deslocar, se afastando da margem e ficou nadando em círculos em águas com cerca de 2 metros de profundidade. O animal foi acompanhado e monitorado pelos técnicos do IBJ, ICMBio, IBAMA, Bosque Rodrigues Alves (Prefeitura Municipal de Belém - PA) e ZOOFIT.
O monitoramento foi feito a partir de canoas movidas a remo, evitando a utilização de motor para não estressá-lo. Aguardou-se a chegada da lancha com a rede antes de se fazer qualquer nova tentativa de manejo com o animal. Isto possibilitou que ele se acalmasse e voltasse a ter uma freqüência respiratória normal.
Com a chegada da lancha foi iniciada a tentativa de conduzir a baleia para um igarapé onde a entrada seria fechada com a rede. A baleia inicialmente acompanhou uma canoa por parte do caminho, como já havia feito naquela manhã, mas depois se afastou e voltou a nadar em círculos. Iniciou-se a tentativa de cercá-la com a rede, porém com os constantes deslocamentos do animal e com a aproximação do final do dia, e a presença de ventos muito fortes a operação teve que ser suspensa para evitar o risco da baleia se emalhar na rede no escuro o que poderia causar seu afogamento e apresentar risco de vida para a equipe de resgate.
Optou-se por interromper as atividades para que nova tentativa fosse realizada no dia seguinte. A baleia foi vista pela equipe de resgate pela última vez por volta das 17:30 horas (19:30 no horário de verão) e segundo relatos dos moradores ela ainda foi vista com uso de lanterna às 22:00 horas (meia-noite no horário de verão). Na manhã do dia 19 a equipe de resgate entrou em contato com os moradores de São José do Arapixuna e eles informaram que a baleia não fora mais vista. Eles fizeram uma busca na região e informaram que não houve sinal da baleia.
Na manhã do dia 20 a baleia apareceu morta, cerca de 200 metros de onde ela havia sido vista pela última vez, estando em decomposição. Uma equipe de três veterinários realizou a necropsia da baleia neste mesmo dia, enquanto os biólogos realizaram registros fotográficos e anotações em planilhas.
Resultados Preliminares da necropsia
A necropsia foi realizada pelo médico veterinário Milton Marcondes, do Instituto Baleia Jubarte, auxiliado pelo veterinário Jairo Moura de Oliveira, do Bosque Rodrigues Alves - Prefeitura Municipal de Belém, e pela veterinária Ana Ely E. de O. Melo, do Núcleo de Fauna do IBAMA - Santarém. Esta espécie de baleia ao morrer afunda, sendo necessária a formação de gases para que sua carcaça volte a flutuar.
A morte foi estimada como tendo ocorrido entre a noite de domingo e a amanhã de segunda-feira, estando a baleia morta a aproximadamente 30 a 36 horas quando se iniciou a necropsia. O animal estava em decomposição moderada, o que comprometeu o exame de vários órgãos e a coleta de amostras para exame histopatológico.
Os principais achados macroscópicos da necropsia foram:
- Área hemorrágica na musculatura abdominal, formando uma cavidade com aproximadamente 0,5 metros de comprimento;
- Área hemorrágica no flanco direito aproximadamente a 43 centímetros baixo do bordo posterior da nadadeira dorsal, formando uma cavidade entre a camada de gordura e a região muscular, do tamanho de um punho e necrose do tecido adjacente;
- Pulmões congestos;
- Estômago vazio, com áreas hemorrágicas na mucosa;
- Presença de epífises dos ossos não fusionadas, cartilagem da borda daescápula com cerca de 3 cm de comprimento;
- Órgão reprodutivo pouco desenvolvido;
- Todos os órgãos em autólise avançada.
Discussão do Caso
Os achados permitem concluir que se tratava de um animal jovem, ainda em fase de crescimento e não maturo sexualmente, provavelmente tendo entre 3 e 6 anos de idade.Pela distância do oceano e pela velocidade de natação é possível concluir que este animal deve ter levado um mínimo de 10 dias para atingir a região, estando, portanto em água doce a no mínimo 15 dias.
A área hemorrágica observada no flanco direito é compatível com um trauma contundente que ocasionou a formação de um hematoma, sem que ocorresse solução de continuidade da pele. Este achado é sugestivo de uma colisão com embarcação. O estado de decomposição do animal não permitiu determinar se esta contusão ocorreu antes ou após o animal ter entrado em água doce.A
área hemorrágica na musculatura abdominal pode ser devida aos períodos em que este animal esteve encalhado e que se debateu para conseguir voltar para águas mais profundas, batendo com o abdômen no leito do rio.A ausência de alimento no estômago era esperada, uma vez que esta espécie se alimenta em águas das regiões polares, e utilizando sua reserva de gordura como fonte de energia quando se encontra em águas tropicais. As áreas hemorrágicas na parede estomacal são sugestivas de gastrite devido a estresse.
Chamou a atenção o rápido processo de decomposição da carcaça. A literatura reporta que alguns fatores podem acelerar o processo de decomposição de um animal, entre eles teríamos o calor (tanto do ambiente quanto o oriundo de um quadro febril) e a proliferação de bactérias no organismo, como nos quadros de septicemia.
As amostras de tecido coletadas serão encaminhadas para exames em laboratórios especializados e somente após os resultados será emitido um relatório final com as conclusões.
Santarém, 22 de novembro de 2007.
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.