
"Estamos enfrentando um problema grave que é o aumento do número de casos de mulheres com AIDS e isso só pode ser enfrentado com ações estratégicas".
Esta declaração é da diretora-adjunta de ações estratégicas do Ministério da Saúde, Lena Péres, que veio a Belém coordenar a Oficina Macro Regional Norte para Operacionalização do Plano Integrado de Enfrentamento à Feminização da Epidemia de AIDS. O evento teve início nesta segunda-feira (17), no Hangar, e está sendo promovido juntamente com a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa), por meio da coordenação de DST/AIDS e Hepatite. A chamada feminização da AIDS está relacionada à mudança de perfil epidemiológico da doença que desde a década de 1990 passou a atingir cada vez mais mulheres.
Em 1985, a proporção de infectados era de 26 homens para uma mulher. Em 2007, este número chegou a 1,4 homem para uma mulher. Segundo Lena, a faixa etária que mais preocupa é entre 15 e 19 anos, na qual a proporção já é de cinco mulheres infectadas para cada homem.
"Mesmo com o crescimento da AIDS entre os adolescentes e os jovens, também vemos um aumento de ocorrências nas mulheres com idade acima de 60 anos. Isso acontece pelo uso cada vez maior de estimulantes sexuais entre os homens, que passam a ter relações sexuais sem proteção fora do casamento, e acabam levando a doença para a mulher", explicou a diretora.
Além da feminização, a AIDS está atingindo em sua maioria mulheres heterossexuais, pobres e que vivem no interior. Lena revela que essas mudanças estão relacionadas a diversos fatores socioeconômicos que envolvem a vida da mulher. Entre os quais estão: a desigualdade de gênero, a violação dos direitos da mulher, a pobreza, e o racismo, entre outras.
"O primeiro fator que envolve a feminização da AIDS é a desigualdade de gênero, na qual a mulher ainda se coloca numa posição subjulgada ao homem, deixando a ele a escolha do uso do preservativo. Isso tem que mudar. Homens e mulheres têm que saber negociar na hora da relação", disse Lena.
Outras condições de vulnerabilidade, ressaltadas pela diretora, são mulheres dependentes químicas, que cedem mais fácil na negociação sobre o uso do preservativo ou, que por vezes, nem negociam; e mulheres que possuem vaginoses (inflamações na vagina), e que estão mais suscetíveis a contrair doenças sexualmente transmissíveis (DST).
Lena destacou que a preocupação do Ministério da Saúde também envolve outras DSTs como hepatites B e C, e até mesmo síflis. "É um absurdo que no país ainda tenhamos mulheres infectadas com síflis, uma doença que é tratável com penicilina e que pode ser descoberta por exame fácil em qualquer unidade básica de saúde", afirmou a diretora.
Ela aponta como fundamental para combater a doença a focalização na mulher como um todo, com ações articuladas em todas as áreas. "Só vamos conseguir enfrentar a AIDS colocando a mulher em condição de destaque, econômica e socialmente" disse a diretora, que apontou também a necessidade de infra-estrutura no município para a identificação da doença: "Uma peculiaridade na situação da doença na Região Norte é que as infectadas descobrem de forma tardia que possuem AIDS.
E isso também acontece porque não há centros de testagem em número suficiente". Ela informou que existem no Pará apenas 20 centros para o atendimento dos 143 municípios do estado.
"Os municípios não constroem novos centros de testagem e acabam devolvendo todos os anos o recurso que o Ministério lhes repassa", contou.
O acesso ao pré-natal, de acordo com Lena, também, deve ser ampliado, para identificar casos novos e impedir a transmissão de mãe para filho.