Por: Redação / Web Amazônia
06/05/2008 às 17h53 Atualizada em 08/05/2011 às 22h16
Nos últimos trinta dias não se falou em outra coisa nos botequins, nas esquinas, nas salas de jantar e nas calçadas deste País senão na morte da menina Isabella Nardoni, morta ao ser asfixiada e jogada no sexto andar do edifício London, em São Paulo. A discussão sobre a violência e suas causas são bem vindas, pois podem significar um melhor esclarecimento da população sobre a questão e, conseqüentemente, uma postura mais crítica das pessoas.
No entanto, o conteúdo das conversas preocupa. Ao invés de girarem em torno das causas da violência, como combatê-la e a quem cobrar providências, elas se limitam a veredictos condenatórios do pai e da madrasta da menina assassinada.Apesar de cada um ter sua própria prova “irrefutável” para condenar Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, a maior parte das pessoas aponta as notícias veiculadas sobre o crime como o principal fator de convencimento.
Formar opinião sobre qualquer assunto com base apenas em reportagens, às vezes mais preocupadas em espetacularizar os fatos do que informar, já seria temerário em uma sociedade carente educacionalmente como a brasileira, o que dizer então quando se trata de um crime envolvendo uma criança de seis anos, seu pai e sua madrasta.
Prova disso são as inúmeras pessoas que deixam suas casas e afazeres para montar vigília em frente a delegacias e a casa dos Nardoni a espera de uma chance de proferir suas sentenças em voz alta e, de preferência, em rede nacional.A busca por explicações para este comportamento, que não é novo, já dura algumas décadas.
Nos anos 20, o jornalista Walter Lippmann, expunha suas idéias num livro best-seller intitulado “Public Opinion” (Opinião Pública), entre elas a de que a democracia era, na essência, um sistema falho. O povo, dizia ele, só conhece o mundo de forma indireta, através das “imagens que forma em sua cabeça”.
A fonte dessas imagens em grande parte vem da imprensa. O problema, argumentava Lippmann, é que as imagens que as pessoas têm e suas cabeças infelizmente são distorcidas e incompletas, mascadas pelas irremediáveis fraquezas da mídia. Pior ainda, a habilidade do público para entender a verdade caso esta viesse à tona acabava danificada pelos preconceitos humanos, estereótipos, falta de atenção e ignorância.
Lippmann continua atualíssimo para explicar o pré-julgamento e as tentativas de linchamento do casal Nardoni cada vez que saem de casa. O caso Isabella mostra com clareza que ele tinha razão ao dizer que, no final das contas, os cidadãos são como espectadores de teatro que “chegam no meio do terceiro ato e vão embora antes da última cortina, ficando no local tempo suficiente para decidir quem é o herói, que é o vilão”.
A solução para o problema levantado por Lippmann, e vivido hoje por todos os brasileiros que acompanham o caso Isabella, está no que diz o filósofo americano John Dewey, professor da Universidade de Columbia: a solução para os problemas da democracia não está em desistir dela, mas sim tentar aprimorar os recursos da imprensa e a educação do público.
* Allan Rodrigues - Jornalista
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