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Pescadores à míngua por causa de megaobras como Belo Monte

Pescadores à míngua por causa de megaobras como Belo Monte

Redação / Web Amazônia
Por: Redação / Web Amazônia
06/07/2015 às 10h03 Atualizada em 06/07/2015 às 10h03
 Pescadores à míngua por causa de megaobras como Belo Monte


Melhor sorte teve outro pescador indígena, José Nelson Kuruaia, e sua mulher, Francisca dos Santos Silva, que viviam em um bairro de Altamira que será inundado pela represa central. Eles conseguiram uma das 4.100 moradias construídas pela Norte Energia para os deslocados urbanos.

Também receberam R$ 20,7 mil de indenização por uma casinha e equipamentos que mantinham na ilha de Barriguda, águas acima de Altamira, onde pescavam de segunda-feira a sábado e conseguiam cerca de 150 quilos por semana. Agora, aposentado e com 71 anos, Kuruaia vai pescar “às vezes”. Ele conta que gosta “muito do rio e se não trabalho adoeço”, disse à IPS, diante da oposição de seus seis filhos e da mulher que o acompanhava como “boa pescadora”, até ter problemas em seus joelhos.

Jatobá, o novo bairro onde Kuruaia foi assentado, ocupa um monte longe do rio. Para os pescadores isso representa um custo de R$ 30 (US$ 9,6) para transportar o motor até à margem, onde se deixa o barco com o risco de ser roubado. Antes, todos viviam em bairros inundáveis, mas na margem do rio.

Diante da pressão dos pescadores, reassentados ou por serem reassentados, a Norte Energia decidiu construir outro bairro urbano perto do rio, para cerca de 500 famílias dedicadas ao ofício. Mas é destinado a pescadores urbanos, não aos ribeirinhos como Socorro Arara.

A batalha dos pescadores não se limita ao lar e aos locais de trabalho. Muitos querem indenizações por perdas nos últimos quatro anos devido à construção da hidrelétrica. “Pesquei quatro dias, de quinta a domingo, e só consegui 30 quilos de tucunaré. Antes pescava de 60 a cem em um só dia e de peixes variados, como pacu, tucunaré, pescada, curimatá e bagre, que havia o ano todo”, contou Giácomo Dallacqua, presidente da Colônia de Pescadores de Vitória do Xingu, com 1.600 membros.

“As explosões na margem do rio são nossa dor de cabeça, porque afugentam os peixes”, pontuou Dallacqua à IPS, se referindo aos explosivos para quebrar rochas e preparar a represa e os canais que comporão a terceira maior hidrelétrica do mundo em potência geradora, de 11.233 megawatts.

A isso se somam a forte iluminação durante toda a noite nas proximidades da obra, a água turva, a dragagem de praias para usar sua areia na construção, o aterramento de igarapés e o trânsito de embarcações pesadas para transportar os equipamentos que vão gerar eletricidade, acrescentou a bióloga Cristiane Costa.

Tais impactos ocorrem especialmente nas proximidades de Belo Monte, um distrito do município de Vitória do Xingu, onde é construída a unidade principal, com 11 mil megawatts de capacidade, e onde a pesca era mais produtiva na região. Mas também ocorrem em Pimental, dentro do município de Altamira, onde é instalada outra unidade geradora, de 233 megawatts, e a represa que inundará parte da cidade de Altamira.

A Norte Energia não reconhece que suas obras tenham causado uma redução na pesca. Não há comprovação científica, apesar das queixas generalizadas dos pescadores, dos quais há cerca de três mil diretamente afetados. Por outro lado, a empresa anunciou investimentos de US$ 7 milhões, em um acordo de cooperação com o Ministério da Pesca, para implantar o Centro Integrado de Pesca Ambiental de Altamira, laboratórios de aquicultura e criadouros de peixes ornamentais, além de capacitar pescadores.

Fonte: IPS
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