04/07/2008 às 19h58Atualizada em 08/05/2011 às 22h16
Bruna Jaqueline Adriana Marinho
Uma fumaça fétida e densa é lançada no ar diariamente pela empresa Avis Pará causando mal-estar nos moradores dos bairros adjacentes, estudantes universitários e pacientes do Hospital Regional. Há muito tempo que as pessoas dessa área são obrigadas a conviver com um cheiro ruim e insuportável. A revolta é geral, mas nenhum representante da empresa assume a responsabilidade pelo dano causado tanto à saúde humana quanto ao meio ambiente, este, sem dúvida, é o mais afetado pelo produto lançado do alto de uma chaminé, provavelmente do forno, onde são queimados resíduos sólidos e restos das aves abatidas todos os dias. Com um cinismo que beira o absurdo, o gerente da empresa disse que do forno a fumaça que sai não tem mau cheiro e que quase não há fedor. “Só um pequeno odor que não incomoda ninguém”, afirma.
Tamanha desfaçatez revela que a empresa não tem compromisso social e tão pouco se importa com os possíveis danos ambientais provocados. À tarde, é possível constatar do alto da chaminé uma fumaça preta que encobre toda área ao redor e se espalha por alguns quilômetros, infestando os lares com um odor nauseante. Percebe-se, portanto, que a granja não investe em processos para tratamento desses resíduos e líquidos, fugindo totalmente à exigência dos padrões internacionais para esse tipo de atividade. “A fumaça me faz entrar em crises, meu nariz fica irritado e sinto muito enjôo”, conta a doméstica Maria das Graças Barbosa, vizinha à granja Avis Pará. É bem provável, portanto, que essa fumaça esteja causando problemas respiratórios nas pessoas.
Comerciantes, moradores e estudantes fazem apelo às autoridades para que pressionem a empresa a mudar-se da área, pois ela é apontada como a principal poluidora do meio ambiente. “Não há dúvida de que a população esteja respirando um ar poluído”, diz o comerciante Mauro Ribeiro.
A reportagem procurou a empresa para que ela se manifestasse a respeito da reclamação popular. O gerente da Avis Pará em Santarém, Ednardo das Neves, aceitou gravar entrevista, mas de início alegou que não há qualquer poluição e mau cheiro como acusam os moradores. Bem confortado em seu belo escritório, com central de ar, mobílias novas e com um cheiro agradável, ele disse que há certo exagero das pessoas em dizer que a fumaça cause algum dano ambiental ou tenha qualquer odor desagradá-vel. Ele afirma textualmente que não existe mau cheiro na fumaça que expele do forno da granja.
Ednardo diz que, nestes quatro anos à frente da empresa, sempre buscou corrigir alguns problemas para evitar transtornos à população. Ednardo explica que a granja é dotada de estrutura necessária que impede qualquer dano ao meio ambiente e aos moradores. “Estamos aqui, trabalhando, e que cheiro tem? Você não vê na pratica essa colocação de que exala mau cheiro, pode ser que em alguns momentos escape um pequeno odor devido à manutenção de algum equipamento, mas tudo isso é tratado e não existe isso que o pessoal fala”, diz.
Por causa das inúmeras reclamações e também pressão política, a empresa iniciou um processo de transferência da granja para outro local. A previsão dada por Ednardo é de que até o final deste ano, a granja esteja funcionando em Belterra, para onde será levada a indústria que funciona atualmente em Santarém. Apesar desta afirmação, os moradores contra-atacam e dizem que esta mudança já virou uma no-vela porque há mais de dois anos que falam em transferir, mas conti-nua no mesmo lugar.
O gerente da granja justifica dizendo que a maior dificuldade foi encontrar um terreno para instalar a granja fora de Santarém. Depois de seis meses, a empresa conseguiu uma área em Belterra e lá, conforme explicou Ednardo, está construindo um complexo para abater os frangos e acabar de vez com essa reclamação generalizada. Mas enquanto essa suposta transferência não é feita, os moradores são obrigados a conviver todos os dias com esse fedor, que prejudica o organismo das pessoas, causando enjôos e uma série de outros problemas respiratórios.
Quem também engrossa o coro contra a empresa são os estudantes universitários e o pessoal da Ulbra, que dizem não suportar mais o fedor, que fica impregnado na roupa das pessoas. Além disso, a fumaça invade as dependências da instituição, incomodando professores e funcionários.
O problema é maior na hora do intervalo, quando os alunos vão para a cantina. Por causa do odor forte e insuportável, eles acabam deixando de fazer o lanche. “Outro dia minha amiga passou mal enquanto fazia um lanche”, completou o estudante Willian Ricardo.
A reportagem procurou aprofundar este assunto e foi até a sede do Instituto Sócio-Ambiental (Isam), mas para nossa surpresa, a coordenadora do órgão informou que não era de responsabilidade do Isam apurar denúncias contra a empresa por causa da fumaça que sai do forno da granja. Luzia Fati disse que compete à Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) fazer a fiscalização, porém, como o escritório fica em Belém, esse trabalho não é feito. “Não há nada que possa ser feito pelo Isam no que diz respeito a granja”, esclarece Luzia, informando que quando assumiu o Instituto, uma das ações pautadas era justamente a averiguação de um possível dano causado ao meio ambiente por causa dessa fumaça. “Mas em virtude da nossa demanda acabamos por priorizar alguns casos relacionados ao município”, completou.
Ela também apontou a deficiência do órgão, que conta com uma equipe reduzida e sem estrutura para fazer as fiscalizações. “É um pro-blema que já vem de muitos anos, é no mínimo desagradável morar em um lugar como esse”, afirmou.
De todos os nossos entrevistados, ouvidos nessa reportagem, apenas a direção do Hospital Regional decidiu não se manifestar sobre o assunto. Em conversa com alguns pacientes internados no HR, eles disseram que o pior momento é à tarde, quando o forno entra em atividade, expelindo uma fumaça negra fedorenta e insuportável. O produto invade literalmente as dependências do hospital provocando um grande mal-estar.
Apesar de todas as evidências apontarem para um problema sério causado pela fumaça que sai da granja Avis Pará, o gerente da empresa afirma que é apenas um pequeno odor, nada que cause tanto incômodo assim.
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